Artigos e Crônicas

Pobre País Rico

 

O motorista paquistanês me levara a um shopping ao norte de Miami e dissera que viver na América lhe dava segurança.

Sessenta por cento dos meus clientes são brasileiros. O Brasil deve ser um país muito rico.

Rico nada, eu disse; lá é tudo muito caro; o povo pega avião, paga hotel e vem fazer compras em Miami; os impostos nos matam; a gente paga, paga, e o governo não devolve quase nada; falta escola, hospital, porto, aeroporto, estrada, transporte, segurança, e, principalmente, vergonha.

Puxa, ele disse, é tão ruim assim?

 É ruim, mas é bom. Não tem terremoto, tufão, tornado, tempestade de neve, maremoto, guerra, mas tem inflação, corrupção, enganação, violência, justiça lenta, e a gente vai levando, como diz um poeta da terra.

E a relação do Paquistão com a Índia, como está?

 Agora vai bem; os dois países têm a bomba e se respeitam.

Coisa de maluco, pensei. E o Bin Laden? Coisa estranha, não?

Estranha nada, ele era amigo do Bush e estava bem escondido, tranquilo, mas o Obama, com a popularidade em baixa, sabe como é, esta esquerda democrata aqui, se balançar muito cai; então ele forjou esta história de matar o homem para subir nas pesquisas e ganhar a eleição; americanos são assim mesmo; inventaram aquela guerra do Iraque para achar armamento que não existia, para pegar o petróleo daquele povo; eles só pensam em dinheiro, fazer guerra e escravizar os outros.

Mas se eles são tão ruins, por que você vive aqui?

Aqui me sinto seguro. Quando meu país melhorar, eu volto. Ainda há muitos terroristas do Afeganistão lá, povo complicado, violento, ninguém pode com eles, têm raiva da gente, são fortes, nem os russos aguentaram aquela gente; vou ficando por aqui, me sinto seguro, a América é um lugar seguro.

Se os Estados Unidos são um lugar seguro, refleti, eu não sei, mas tem gente de todo o mundo buscando trabalho. Em Miami, a maioria dos motoristas é do Haiti, um país próximo e muito pobre, devastado por desastres climáticos.O serviço ruim sobra para os imigrantes, alguém pode dizer.Pode ser, mas tem este lado positivo de dar oportunidade. É bom? Não é? Quem sabe? É lógico que a vida não pode se resumir em ter uns trocados no bolso para se sentir seguro. Mas é bem melhor que viver em países onde o poder religioso se sobrepõe a tudo e as pessoas, imersas no fanatismo, não têm segurança de vida.

Se o Brasil não se cuidar, os fanáticos assaltam o poder e as coisas vão ficar muito ruins. E não são só os fanáticos religiosos, há os ideológicos, os por dinheiro, e, o pior de todos, o pelas próprias ideias, o rígido, inflexível, arrogante, se julga melhor que todo o mundo e não admite nenhum reparo aos seus preconceitos mumificados, pois este é o maior cego, não quer ver, nem entender.

Aquele paquistanês simpático se comunicara bem e me parecera informado; os outros que encontrei, todos do Haiti, muito falantes também. Em geral, motoristas de táxi são assim.

 Perguntei a um haitiano como conseguira a licença para trabalho; ele me disse que havia pago dez mil dólares para uma americana casar com ele e ter a cidadania; é um tipo regular de comércio, depois se divorciam.

Conheci um outro, muito engraçado, que dissera ter pago cinqüenta mil, pois alguma coisa dentro dele intuíra uma união para sempre. Está com a mulher há dez anos, três filhos americanos e muito feliz.

 

Nagib Anderáos Neto

 Maio de 2013.

www.nagibanderaos.com.br

Escrito por:  Nagib Anderáos Neto
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