Artigos e Crônicas

O MISTÉRIO DO PAI E DO FILHO

 

Para uma criança, Deus se confunde com os seus pais. Aqueles que a geraram recebem-na à vida com um amor entranhável; protegem-na contra os perigos do mundo nos primeiros anos, orientam-na na adolescência e juventude, e prosseguem como um respaldo moral e espiritual na idade adulta. 

Deus está ali, na palavra do pai e da mãe que ensinam, aconselham, reconfortam. E o filho, acostumado com este amparo divino, julga que sejam eternos; não pode compreender a vida sem aquelas presenças. A família constitui para ele o templo verdadeiro, em cujo altar se fundem os pais terrenais, dos quais herda o amor, a fisionomia e os conhecimentos. Deverá, no entanto, seguir o seu próprio caminho. E numa incompreensível transição, a criança feita homem se verá privada do convívio com seus pais; o mesmo Deus chama para si aqueles seres queridos, deixando a criança adulta perplexa, desamparada, desconcertada defronte da morte daqueles que lhe eram tão queridos.

 Qual o significado desta perda? Por que a repentina ausência depois de tantos anos de convívio? Por que a luta, a vida e o aprendizado se tudo termina com a morte? Deus, tão justo e bondoso naqueles ditosos dias da infância, que ensinamento estaria transmitindo à criança-adulta privando-a do convívio com seus pais? Qual o significado da morte? E o da vida? Deus parece segredar-lhe que o Pai Universal mostra- se aos seus súditos de muitas maneiras; especialmente no amor impregnado na família, cuja essência é divina, e está acima de qualquer definição, ideologia ou religião, por ser Universal e eterno.

 Ao assumir a postura de pai terrenal, a criança feita homem deverá prosseguir o seu caminho evolutivo preparando e construindo o seu destino; carregando dentro de si o exemplo, a recordação e a gratidão por seus pais e colaborando para a construção de um mundo melhor para as gerações futuras. Deverá viver nesta vida uma sucessão de outras, aperfeiçoando-se, transformando-se continuamente; vivendo várias vidas numa só. Descobre que, além de pai e educador de seus filhos, deverá sê-lo, também, de si mesmo; compreende que o Pai ancestral se confunde com a criança que vive em seu coração, e pode viver e sobreviver pelos pensamentos e obras que possa produzir, e o grau de consciência alcançado; que o mistério do pai é o do filho, e somente ele poderá desvendá-lo.

Escrito por:  Nagib Anderáos Neto
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