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Nagib Anderáos Neto

O jogo do Contente

 

Conheci a Verinha em cinquenta e seis. A jovem atriz interpretava Pollyana num seriado infantil da antiga TV Tupi. Como todo ator, que recebe a influência da personagem, além de ser parecida, era contagiada pela alegria e o otimismo dela. A postura da menina defronte de algum fato adverso conseguia afastar a tristeza, a depressão e o aborrecimento, desviando o olhar entristecido para outro ângulo, mais alentador, algo de bom a compensar o de ruim que estivesse acontecendo.Ela fazia o jogo-do-contente. Apesar do mau momento, podia recordar de outro fato que houvesse acontecido. Desta maneira, mantinha a alegria. As crianças têm uma vocação natural para fazer o jogo. É muito comum vê-las pedindo esmolas numa esquina, situação de precariedade, estando alegres, sem sofrimento.Isto chega a ser um grande exemplo para os adultos.

A imagem da Verinha, com toda a alegria e o otimismo, acompanhou-me durante muitos anos, porque a conheci, e tive a oportunidade de viver o jogo-do-contente nos ensaios e nas apresentações do teatro infantil. Muitas vezes, já adulto, fiz o jogo, afastando algum aborrecimento, o qual todos acabamos por passar.

 

Depois de passados muitos anos daqueles dourados da década de cinquenta, quando conhecêramos o teatro, a televisão instrutiva, que hoje não existe mais, fiquei sabendo que ela havia falecido, tirado a própria vida. Mesmo sem ter conhecido os detalhes, não pude deixar de refletir sobre o paradoxo de Pollyana, pois a Verinha não soube aproveitar a instrução da personagem, e poderia ter evitado o desenlace triste para o qual caminhou. Refleti sobre a postura equivocada ao não sermos aquilo que pensamos ou chegamos a ensinar aos nossos filhos.

De qualquer forma, a lição de Pollyanna é admirável, por ser atemporal, universal; a dizer que, por mais duros, tristes ou deprimentes os momentos que estejamos vivendo, sempre haverá algo em nossa recordação, no coração, que se não puder compensar a tristeza, pelo menos haverá de amenizá-la, pois se existe a vida para o ser humano, a sintonia entre o que se pensa e sente poderá operar verdadeiros milagres em sua alma.

O segredo consiste no domínio que se possa ter sobre a inteligência e a sensibilidade. Ele representa o verdadeiro conhecimento, o de si mesmo, tão estranho e distante das preocupações do homem moderno, na sua posição passiva de espectador distraído do drama que o envolve e a tantos outros.

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